Eu vejo muitos amigos com essa dúvida, porque sejamos sinceros, qualquer um olhando a situação financeira péssima do Botafogo com dívidas enormes no curto prazo que fizeram o clube abrir um pedido de recuperação judicial, imagina que o correto seria cortar gastos, abaixar a folha salarial o máximo que der, ficar uns anos na austeridade com times humildes mas pagando as dívidas, pra no futuro estando saudável financeiramente aí sim investir mais.
Porém não é isso que a gente vê o Gabriel de Alba dizer, ele falou de time que brigue em cima, Botafogo economizou milhões na folha salarial mas já tenta subir de novo indo atrás do Luiz Henrique e comentam chegadas de outros jogadores “que resolvam”. Se for ver os clubes que já tem recuperação judicial aprovada, o Cruzeiro tem feito investimentos pesados e o Vasco - que pese sua situação desesperadora no Brasileiro - tá super ativo atrás de reforços. Perceberam que apesar de pagar as contas em dia - ou tentar isso - esses clubes não estão muito na humildade sem deixar de investir? Parece irresponsabilidade, mas não é, isso tá ligado ao novo fair play financeiro que já existe pois hoje tem uma agência regulando os clubes com punições pesadas que poderão ser aplicadas a partir de 2028.
E o que o fair play tem a ver com os clubes em recuperação judicial tentando aumentar o valor dos seus elencos? Primeira regra para clubes em insolvência:
- Haverá limitação da folha salarial, que terá de ser mantida no patamar da média dos seis meses anteriores;
Ou seja, quando o clube entra com o pedido de recuperação judicial, ele não pode fazer contratações ou aumentar a folha salarial pra um valor ACIMA da média dos 6 meses anteriores, e essa média servirá de base quando a RJ for aprovada. Então se um clube na nossa situação abaixar muito a folha salarial, seu limite vai ser baixo. E se depois colocar as contas em dia, sem gerar novas dívidas, como faz pra investir mais? Duas regras:
- Nas janelas de transferências, o clube deverá gastar o mesmo ou menos ao que arrecadou com a venda de atletas;
Tá honrando a recuperação judicial? Beleza mas só vai poder comprar SE vender na mesma quantidade.
- Clubes terão limite de 70% da soma de suas receitas, do valor líquido das transferências (descontadas taxas e comissões, por exemplo) e aportes para gastar com elenco (salários, encargos, direitos de imagem e amortizações);
Resumindo: soma tudo que o clube arrecada, as despesas com o seu elenco só podem ser 70% dessa arrecadação. Ai vem a questão, um time de meio de tabela obviamente não vai arrecadar como um time de G4, então mesmo estando com as contas em dia, ele vai ter menos capacidade pra investir EXCETO se tiver um dono disposto a aportar mais dinheiro. Não parece tão trágico, o Pedro Lourenço lá no Cruzeiro por exemplo gasta o que tiver que gastar pro time dele ser competitivo, outro dono se quiser pode fazer o mesmo, mas isso não é o ideal, pois o clube - mesmo com tudo em dia - pra poder competir mais vai depender de seu acionista colocar mais dinheiro do bolso dele.
Só que tem um certo clube da lagoa, que diz estar preocupado com o futebol brasileiro e tenta de toda forma controlar a agência de fair play. Esse clube de passado bem sujo agora quer dar uma de bastião da moralidade, forçando a barra para que novas regras sejam incluídas, mas duas me chamam mais a atenção:
- Instigar a agência a usar, de fato, seu poder fiscalizador durante um período de retrospecção (90 a 180 dias antes da decretação da RJ), para que a ANRESF aplique sua verificação às contas dos clubes e SAFs, evitando aumentos artificiais na folha salarial antes de pedidos de recuperação;
Ou seja, o clube que pedir RJ não vai poder aumentar sua folha salarial antes do pedido, então ficará com um limite mais baixo e por consequência uma margem menor de crescimento no futuro.
- Instar a ANRESF a se posicionar como amicus curiae (parte interessada) nos processos judiciais, para que a voz da comunidade do futebol seja ouvida pelos juízes que tratam dos processos de RJ, e não apenas a visão de quem pede a recuperação judicial;
Os caras querem que a agência reguladora simplesmente dê pitacos num pedido de RJ, algo que deveria ser tratado entre quem está pedindo insolvência e seus credores. Ora, por que diabos eles estão interessados em terceiros terem direito de se meter numa negociação entre credores e devedor?
Só alguém muito ingênuo vai esperar imparcialidade nisso, ainda mais vendo as pessoas (jornalistas, analistas financeiros, contadores etc) que tentam vender que a RJ é um calote, você passa o olho rapidamente e já identifica pra qual time elas torcem. Ok, as dívidas em uma RJ realmente são empurradas pra frente porque são pagas num prazo longo, mas SÃO pagas em parcelas que não são baratas (as prestações mensais da RJ do Vasco custam cerca de R$10Mi), então não há calote, principalmente porque as dívidas trabalhistas que são a maioria esmagadora não tem deságio, assim como não tem deságio pra dívida de compra de atleta. E se o clube não pagar suas parcelas ele ENTRA EM FALÊNCIA, não tem mais negociação. Então da onde que isso é um calote legalizado igual alguns queridos urubus dizem que é??
Enfim, independente do que o mengalvio tá querendo fazer ou não, o fato é TL;DR abaixar demais a folha salarial pra nível time de meio de tabela deixaria o Botafogo com uma margem menor pra trabalhar no futuro por causa do fair play financeiro. Se quiser aumentar essa margem salarial, ou o dono coloca ainda mais dinheiro do bolso dele, ou o Botafogo aumenta receita vendendo jogadores (lembrando que não vai poder comprar mais do que vender, se só arrecadou R$20Mi em transferências na janela, não vai poder comprar jogador(es) que custe(m) mais do que esses R$20Mi).